terça-feira, 15 de julho de 2008

Nem palavras


Nem palavras, nem expressões
Nem eu nem tu
Nem ninguém
Nem anjos nem arcanjos
Nem diabos ou negros anjos
Nem nenhum tipo de deus grego
Parcialmente esperava algo que não trouxeste
Humanamente ansiava por algo que nunca foste
E como um anjo silencioso voo em voos picado
Por volta de algo insuficiente para o gasto de energia

Obviamente havia mais anjos
E mais deuses, e mais gente
E mais almas à espera que eu as amasse
Mas não uma alma teimosa como a minha
Sou a eterna corrente que persegue nas sombras
Não sei procurar mais ninguém
Pelo anjo que para mim foste
Não sei lutar mais pelo cansaço que representas-te
E desfizeste-me em mil bocados
Em mil peças saudosas de ti por te querer
Em mil peças de mil cacos ansiosas por te ver

Sinto-me perder


Sê meras palavras ao vento
sê a luz de olhos que não te vejam
se a mais pura memória de quem não tem lembranças…
Sê tu outra vez para mim
Para que eu não tenha que te esquecer outra vez
Sinto-me perder…

Sê de volta tu para mim
Sê tu de volta para que não tenha
que voltar a pisar os escombros do meu ressentimento
Sê tu de volta para que não tenha
que continuar a sentir-te em pesadelos
Para que não tenha que te esquecer outra vez
Sinto-me perder…

Sê tu as colcheias que preenchem meu ser
Sê tu livre comigo, como as ondas
Sê tu o meu ser, por mim e por nós
Sê tu aquilo que sempre foste alegremente
Sê tu os raios de sol e a luz da lua
Sê tu meu ser
Para que não tenha que te esquecer outra vez
Sinto-me perder…

Anjo Vazio


Por momentos esqueci tudo o que nos rodeava
Esqueci a minha vida e a tua
Esqueci toda esta amálgama de sentimentos fúteis
Só para te olhar, para te ver…

Do mais profundo do meu ser só te desejava a ti
O meu eternamente perfeito deus grego
Algo cuja beleza me traía e ainda me trai
Cada olhar, cada vislumbre…

A noite fez-se para amar, para lembrar a tua presença
É como um castelo medieval que eu revisito todas as noites
No escuro para que não me vejas
És a minha prece, acendo as minhas velas…
E continuo a velar-te como um anjo vazio…

Alma Penada


Encurvada, sofrida, erodida pela sina de um ser solitário
Uma alma penada revisita as sombras, o negrume…
A fina filigrana da amargura
Sempre ténues, sempre escuras,
Nevoeiro, angustiantes amarguras,
Abafa, mói, entristece…

Pequeno anjo que procuras?
Quando os olhos da tua alma choram que procuras?
Quando o desconhecido te abafa?
Que procuras quando são frias as mãos que te seguram?
Onde estás quando todos os teus sonhos foram trucidados?
Onde estão os pedaços do teu coração?
Demasiado pequenos até para pensar em colá-los…
Que procuras ainda desta vida vazia?
Mas é apenas dor… Apenas uma trucidante e incessante dor…
Será que procuras misericórdia para o teu sofrer?
Quão estúpida sentes poder ser?
Quão estupidamente amargurada pode alguém ser?
Tudo muda… TuDo se DesFaZ como os CasTelOs de CarTas…
Restam-nos os escombros… quando já nada se pode esperar da vida…

Descalça


Foi como caminhar sobre vidros partidos
Sobre uma montanha deles, descalça…
Foi sentir a dor ao ponto mais trucidante e excrucitante
Humanamente possível de suportar…
Foi só um simples olhar-te da profundidade das minhas trevas
Foi tão duro, tão obscenamente penoso,
Tão simplesmente meu que é de um impossível explicar por palavras…

Sinto-me contida neste colete-de-forças, tão contida e tão envenenada
Por actos, palavras e sentimentos que já nem sei se sou eu…
É fácil, tão fácil ser politicamente correcta que já nem sei que é feito de mim…
Perdi os meus pulmões algures na corrida para te encontrar e agora nem sei se valeu a pena…

Não sei se vales a pena, se todas estas penas
Estas dores, esta solidão de estar comigo mesma na busca por ti
Já não sei se valeu a pena toda a melancolia por que passei
Se todas as vezes que o meu coração foi apunhalado valeram a pena
Se todas as vezes que ele se partiu
Se todos os pedaços que eles já teve, todos aqueles pedaços
Agora irremediavelmente perdidos…
Será que algum dia tiveram significado?
Será que alguma vez me mereces-te ou fizes-te por merecer-me?

Mãos vazias


De que vale dizer que quase vivo
Se quase morro de desilusão
De que vale sentir-te na tua proximidade,
Arrepiar-me com o crepitar da tua presença quase invisível,
No teu cheiro, sentir ainda o gosto a sal da tua pele em meus sentidos,
De que vale não ter esquecido a tua essência?
De que vale quase poder tocar o fantasma da tua existência…

De que vale ser quase tua, de que vale?
Será que ainda vale de alguma coisa a minha existência?
Continuo a viver uma vida que não é minha,
A ocupar-me com os outros enquanto vivo a farsa da minha vida…
Sinto um vazio tão grande…

É tão grande este peso, quando me sinto tão pequena…
Tão frágil… Quando a única luz fundiu como uma lâmpada vazia…
Meus olhos preferem deixar de existir a continuar a chorar…
Não há uma ponte para atravessar as águas turvas,
Quando tudo é tão vazio como a asas de um anjo negro que chora…

As mãos vazias da justiça olham-me impotentes…
Onde estava ela quando o fado nos cortou a existência?
Quando os olhos viperinos minavam nossa dança
Sedentos de cada um dos nossos movimentos em falso
Tão perto, tão tensos, tão nadas…

Cartas


Hoje queria voar, para bem longe
Já nada me prende a esta terra enfadonha
Amo-te, será que vale de alguma coisa?
Dizem que sou dona do teu coração
As cartas… mas só as cartas…
E eu sinto-me tão idiota por deixar as cartas
semear a dúvida no meu coração…
Mas que alternativa tenho
se as cartas são a única coisa a dize-lo?
Queria voar para longe e levar-te comigo
Mas nunca farias comigo essa viagem…

De que vale se te amo e sou uma sombra?
De que vale ser importante só quando te aborreces?
De que vale ser importante se isso é a única coisa que algum dia serei?